
(Sobre
minha vivência de 10 anos no bairro Cidade Nova)
O Cidade Nova está localizado na
zona norte de Foz do Iguaçu, entrincheirado pelas torres de energia que vai de
Itaipu a Furnas e divide o bairro ao meio. Por toda a extensão do linhão
podemos observar os corpos energizados de famílias com suas enxadas cultivando
roças de mandioca, milho, quiabo, feijão andú e batata-doce. Nos quintais das
casas, pequenas hortas com hortaliças, temperos e ervas medicinais, regadas à
mangueira ou regadores de mão e jardins floridos atraindo borboletas, abelhas e
beija-flores.
Passear pelo bairro nos horários da
janta é se sentir em um restaurante, e quem for bom de olfato vai identificar o
cheiro de coentro, salsinha, cominho, tempero baiano, colorau e da mistura de
sabores e saberes desse povo oriundo de varias cidades.
Boa parte das casas são conjugadas e
padronizadas, construídas pelo projeto habitacional da prefeitura. Nas noites
chuvosas dorme-se ao som da água que cai por sobre o telhado de amianto. E nas
noites de céu limpo, uma rede no quintal oferece um belo cobertor de estrelas e
uma lua cheia, de encher os olhos. Nota-se em frente aos quintais, pilhas de tijolos,
areia e pedra, onde moradores reformam suas casas no ritmo das condições
financeiras, tornando o bairro um eterno canteiro de obras.
O primeiro posto de saúde foi
desativado para a construção do segundo. E em breve o segundo será desativado
para a inauguração do terceiro, que até aqui sempre teve um atendimento
precarizado. Somado a um colégio estadual, um colégio municipal e uma creche
com poucas vagas, uma pequena academia a céu aberto, essas são as estruturas
que o Estado disponibilizou.
Quem faz a movimentação cultural do
bairro são os moradores que se juntam no CNI, um centro cultural com Biblioteca
Comunitária. Outra presença cultural é a galera do Movimento Hip-Hop, presentes
nos grafites que margeiam o parquinho das crianças e nas produções do Estúdio
Comunitário ECO. Uma associação de capoeira – Cordão de Contas - também oferece
encontros semanais. Temos duas associações de moradores com seus presidentes
que batem palma na frente das casas em ano eleitoral.
Bairro
de manhãs sonolentas e fins de tarde eternos, de um pôr-do-sol que se desmancha
no horizonte e sinfonia de pássaros, o Cidade Nova muitas vezes aparenta uma
cidade pacata, congelada no tempo, com
seus cavalos puxando
carroças de papelão, galinhas
soltas pelos canteiros perseguidas por cachorros serelepes acompanhados pelos
olhares das crianças que vendem latinha para comprar sorvetes e doces depois da
escola.
A antiga plantação de soja que
degradava o solo por aqui até 1997 deu lugar as casas populares e diversas
árvores plantadas pelos próprios moradores, oriundos de áreas de remoções e
outros cantos da cidade. Nas tardes de sol, as sombras convidam para um tererê,
um chimarrão, um cafezinho e uma boa conversa entre vizinhos e visitas. Nas
esquinas e na frente das casas a molecada se reúne com suas caixas de som
portáteis turbinadas com seus pen-drives ao som do funk, sertanejo, rap, musica
eletrônica, hits dos anos 60, 70 e 80, com copos gigantes de bebidas coloridas
e fumaça de arguile lançada ao ar.
Uma igreja católica e dezenas de
igrejas evangélicas disputam os fiéis com os bares. De tempo em tempo passa um
carro de som divulgando o culto, disputando espaço com as propagandas de
supermercado, troca-se sorvete por extintor velho de carro, e vende-se cartela
de ovos com 30 unidades. Nas copas das árvores podemos ver a molecadinha
enchendo o bornal de frutas de várias espécies. Ceriguela, ameixa, manga,
goiaba, acerola, pitanga, fruta do conde, amora, ingá, abacate e jaca, faz a
felicidade dessa galerinha de sorriso largo e braços abertos aos abraços.
Ao redor do Cidade Nova avizinham-se
os bairros, Vila Solidária, Jd. Universitário, Jd. Andradina e Jd. Almada. Esse
último é onde, nos dias de intenso calor, algumas pessoas pegam trilha até o
riozinho para banhar-se nas águas 'nada convidativas' e pescar com suas
varinhas de bambu: pequenos lambaris, mussuns, morenitas, tilápias, carás,
bagres e traíras.
Terra de gente criativa, humilde e
batalhadora, que na sua grande maioria se ocupa de algum ofício. Estudantes,
agricultores, poetas, músicos, capoeiristas, artesãos, trabalhadores que se
amontoam nos coletivos ou pilotam suas bicicletas e motocicletas com placa
paraguaia, indo e voltando do trabalho. Nas madrugadas lotam os ônibus que
levam os trabalhadores para a labuta nas cooperativas agropecuárias da região.
Churrasco, música alta, ruas
movimentadas com gente carro cachorro gato, filas nas janelinhas dos disk
bebidas, frango assado nos mercados, dezenas de pequenos comércios, jogos de
futebol, pipas no céu. Nos fins de semana, Cidade Nova é efervescência,
loucura, êxtase de corpos cansados, seja
da exploração do
trabalho, como da
violência doméstica.
As placas na frente das casas vão de
vende-se mandioca, gelinho, produtos da Avon e Jequiti, às dezenas de placas de
vende-se esta casa. O bairro está preso no marasmo político, ignorado pelo
poder público em seus planos diretores, desunidos e enfraquecidos frente à
perversidade do capitalismo e seus vampiros que atacam nossos direitos.
O horizonte desenha-se como um vidro
de carro embaçado pela tempestade torrencial dos nossos tempos, onde os
condutores estão expostos a todo tipo de acidentes.
Mas, o poeta profetiza: "Nossa
vitória não será por acidente". Nos últimos anos, esse pedacinho de chão
vermelho, vem recebendo e articulando encontros e parcerias com gente de toda
America-latina e Caribe. Damos nuestro bienvenidos a todos hermanos e hermanas,
para construirmos la integracion latinoamericana.
Hasta
la victoria, siempre...
(Do livro: Memórias Afetivas)
(Do livro: Memórias Afetivas)

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