segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A VINGANÇA DE MARIA (Mano Zeu - 2017 - Foz do Iguaçu)


























- Chefe é tudo igual. Ai!!! to furiosa, que asco.
- O que foi dessa vez, Maria?
- O Dr. Heitor, me chamou no escritório e veio tentando me encochar de novo, canalha.
- Ai mulher, não fala isso, ele continua fazendo essas coisas. Toma cuidado. Viu o que aconteceu com a Verinha. Foi denunciar e acabou ganhando a conta por justa causa. A situação não tá assim pra ficar sem trabalho.
- Eu não vou aguentar isso não. O traste fica me perseguindo no trabalho. Outro dia passou a mão encima da estante e falou pra eu limpar de novo que tava com poeira.
- Eu lembro quando ele fez isso com a Verinha. Imagina, o home baixinho do jeito que é, na pontinha do pé pra alcançar a mão encima da estante. Foi até engraçado.
- Tem nada de engraçado não, Rosa. Isso é assédio, e assédio é crime. Temos que denunciar. A Verinha falou que um dia ia colocar uma gilete bem afiada lá encima, pra quando ele passasse a mão. Ai, porque não fez.
- É, não deu tempo.
- Agora, cê viu a Selma. Vive trancada lá no escritório. Como se presta a um serviço desses.
- Pra você vê. Nunca mais pegou no pesado, agora é só fazendo cafezinho e levando pro ‘chefinho’.
- Mulher, to me segurando, se eu contar pro Fabio tu já sabe, né, não sobra uma bala no treizoitão.
- Agora, eu, se contar pro João, ele ainda vai colocar a culpa em mim. Vai falar que é a roupa que eu uso pra vim trabalhar.
- Tenso amiga, imagina ele controlando sua roupa, num calor desse e você vindo trabalhar com roupa fechada.
- Né... Mulher, mudando de assunto, o que foi aquela chuva. Alagou tudo lá em casa.
- Nem me fala, lá em casa a água bateu na porta.
- O pior foi depois, o que entrou de aranha dentro de casa. As crianças morrem de medo. Não conseguem nem dormir direito.
- E acredita que lá em casa deu pra aparecer escorpião. Uns escorpiãozinho preto, bem pequenininho.
- Viche, toma cuidado, esse bicho mata. Ai, me arrepio tudo só de pensar. Esses pequenininho que é perigo, entra dentro do sapato e a gente nem vê. Uma picada desse bicho e já era.
- Nem me fala. O Fabio colocou eles dentro de um vidro, chamou o Centro de Zoonozes, mas até agora nada. Os bicho tão tudo lá, vivinhos da silva, com aqueles rabinho pra cima pronto pra injetar veneno.
- Ai que medo. Parece cobra cascavel preparando o bote.
- Medo.
- Olha lá o home te chamando de novo.
- Falei pra tu, agora tá me perseguindo. Aposto que vai passar a mão encima da estante e mandar eu limpar de novo.
- Olha lá o que tu vai fazer. Emprego não tá fácil não.
- Pode deixar amiga. Amanhã tem surpresinha encima da estante.
- Mulher!

- Esse não passará.

(Do livro: Contos que me Contam)



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