Favela. Substantivo feminino.
3.
Regionalismo: Brasil. Conjunto de habitações populares que utilizam materiais
improvisados em sua construção tosca, e onde residem pessoas de baixa renda.
4.
Derivação: por extensão de sentido. Regionalismo: Brasil. Uso: pejorativo.
Lugar de mau aspecto; situação que se considera desagradável ou desorganizada
/Dicionário Houaiss.
" - O
cinema deveria devolver ao público a complexidade e inquietude das coisas, não
uma visão simplificada. Cidade de Deus tem virtudes (o tema escolhido, os
atores excepcionais, o virtuosismo da montagem) e problemas, especialmente na
forma como cria um estereótipo sobre os favelados: negros quase animalizados,
ferozes, matando uns aos outros.
A questão é
deixar claro que a proposta desse filme é uma entre outras possíveis, que não
esgota o tema e traz questões éticas cruciais." Ivana Bentes
(pesquisadora)
"-
Cidade de Deus incomoda, pois reduz a favela a um único ponto: a disputa pelo
tráfico de drogas. Fernando Meirelles tenta mostrar o ovo da serpente e acaba
se deparando numa redução do tema. Cristaliza a realidade da favela em um único
ponto: nasceu na favela não tem escolha." Itamar Silva (presidente do
grupo ECO).
"- O
grande paradoxo da favela carioca é que ela é, ao mesmo tempo, um gueto de
excluídos, uma tragédia social, uma vergonha nacional e um tesouro cultural
inestimável: um locus de tensões que é o trailer do Brasil. Por isso, Orfeu não
tem heróis nem bandidos. Não se trata de um filme maniqueísta americano. Orfeu
[o personagem] é lindo e maravilhoso, mas é fraco. Lucinho faz tráfico de
drogas, mas é solitário, triste, hamletiano. É um filme em que não se tem o bem
absoluto nem o mal absoluto, porque numa situação limite como a que se vive nas
favelas cariocas isso não existe." Carlos Diegues (cineasta)
A cidade
maravilhosa x A cidade favela. De um lado a cidade com praias, mulheres lindas,
sol o ano todo, o cartão postal para mostrar para os turistas, para se orgulhar
de ser carioca e poder dizer: o Rio é a cidade mais linda do mundo! Do outro
lado a cidade favela, com a miséria, famintos, bandidos, armas, trabalhadores:
os pobres. Duas imagens opostas ao mesmo tempo recorrentes na mídia.
Se estas
duas imagens já tiveram uma convivência mais "harmoniosa", hoje em
dia elas se chocam, quase lutam entre si porque a cidade favela invade a cidade
maravilhosa, se faz ouvir com tiros, bombas, já não mais com samba...
Hoje a
cidade maravilhosa tem que olhar para cima para ver a cidade favela, embora não
saiba o que fazer com ela – colocar muros? – mas entende que algo deve ser
feito não porque a cidade favela está out, mas sim porque anda fazendo barulho
demais, não respeita as leis da cidade maravilhosa, que não compreende as
outras cidades do Rio. O Rio é uma cidade composta por diversas outras cidades,
com tantas realidades que não podem ser imaginadas e tocadas pelos próprios
cariocas; a cidade é idealizada como um todo por todos em todas as partes e
camadas sociais, por uma razão simples: não há contato entre as diversas
cidades que compõem a cidade Rio. A cidade Rio não se conhece, se excluiu, se
separa, não quer saber de si.
A cidade
maravilhosa se deixa tocar quando o barulho chega nela. Enquanto as outras
cidades do Rio querem ser cidades maravilhosas também, querem se inserir, fazer
parte do sol, da praia, querem ser cantadas em verso e prosa. Não é muito, só
querem ser aceitas.
A divisão da
cidade Rio em micro-cidades se origina de uma política de exclusão aplicada no
século XX. Desde a reforma de Pereira Passos, passando pelos planos Agache e
Doxiadis, a opção foi sempre pela separação, pela segregação. Durante o século
XX, a cidade civilizou-se e modernizou-se, expulsando para os morros e
periferia seus cidadãos de segunda classe. O resultado dessa política foi uma
cidade partida que gerou não apenas um desastre moral e humanitário, mas também
se mostrou ineficiente do ponto de vista da eficácia, seu principal produto foi
o apartheid social.
Herdeiros
desta política de exclusão pagam o pato de ambos os lados da cidade Rio. O
enfrentamento entre as diversas cidades faz com que a cidade maravilhosa
repense a cidade favela, razão pela qual a cidade favela tem sido “A” questão
atual da mídia; os olhos estão voltados para cima. O problema é que a mídia
pertence à cidade maravilhosa, é feita e vendida para seus habitantes e os
moradores da cidade favela reclamam de sua foto que sai nos jornais todos os
dias.
A mídia
jornalística costuma reduzir os problemas da favela, banalizá-los; são tantos
mortos todos os dias, todos os dias morre alguém, que a morte já não tem peso;
somente quando envolve alguém da cidade maravilhosa, a morte tem algum valor.
No caso da mídia cinematográfica, a favela é mostrada de maneira mais crítica,
se comparada com a mídia jornalística, mas a favela é igualmente retratada e
vendida para a cidade maravilhosa. A cidade maravilhosa é a grande consumidora
das fotos da mídia.
Entretanto,
a cidade maravilhosa é composta por diversos sujeitos e consumidores.
Burgueses, intelectuais, artistas, não são feitos da mesma matéria-prima,
embora coabitem o mesmo espaço. A foto da favela feita pelo cinema interessa,
majoritariamente, aos intelectuais e artistas, mas aqueles que moram nas outras
"cidades" nem sempre se reconhecem nela...
Qualquer
forma de representação por si mesma é idealizada, posto que não é o objeto, mas
sim uma interpretação do mesmo, de modo que ninguém conseguiria produzir um
retrato fiel da favela, até porque a favela tem muitas faces. No entanto, a
mídia costuma escolher a face da favela mais sangrenta, violenta, a que mais
faz barulho e incomoda.
A favela
sempre foi representada por indivíduos oriundos da cidade maravilha,
influenciados por sua classe social, pelo contexto histórico; em nenhum momento
até o presente, as vozes da favela foram ouvidas na mídia. Nas décadas de
50/60, a favela era vista como um lugar de gente pobre, trabalhadora, que tenta
sobreviver.
Atualmente,
a representação da favela se vincula à violência, armas, perigo, tiros e
inserção. Obviamente, a representação da favela mudou porque os tempos também
mudaram, mas como foi dito anteriormente, ela sempre foi representada pela
elite. O fato dos filmes serem feitos pela elite, não desmerece seu valor, sua
estética, mas reitera a exclusão, a falta de voz das camadas populares.
Em Cinco
vezes favela, há uma cena em que enquanto uma mulher procura comida no lixo se
ouve um sambinha ao fundo; a dramaticidade da imagem não combina com o fundo
musical. O crime é mostrado, mas as motivações envolvem a sobrevivência do
personagem; o sujeito rouba para comer, os meninos roubam gatos para fazer
tamborim e ganhar algum dinheiro, em suma, o X da questão é a luta pela
sobrevivência. Naquele momento a favela é mostrada como um lugar de pobreza,
mas de uma maneira romantizada, visão própria daqueles ditos tempos dourados.
Anos depois,
a partir da ditadura militar, o cinema, passível de censura, precisava ser
repensado, e mesmo amordaçado sobreviveria. A miséria tão próxima das favelas
opunha-se a do sertão nordestino e a vida urbana, com seus personagens e
cenários instigantes, também serviria de tema nesse novo contexto social.
Glauber Rocha propõe, então, em um manifesto, a "Estética da Fome",
diferente de tudo que até então havia sido feito em cinema no Brasil. Glauber
criticava a tríade ética/ estética/ política correspondente às questões daquele
momento, lembrando que o cinema sobre miséria e pobreza corria o risco de cair
no folclore, no exotismo, no didatismo ou no paternalismo.
O fato é que
a favela deixaria de ser retratada por um longo período de tempo, até meados da
década de 90, no início da chamada "retomada" do cinema nacional.
Nesses anos em que a favela deixou de ser mostrada, os olhos estavam voltados
para o golpe militar, o comunismo, a ditadura, o AI-5, a democratização do país, o
exílio, a guerra fria, os movimentos dos trabalhadores, a dívida externa, as
diretas já etc.. Enquanto isso, o ovo da serpente estava sendo chocado. A
convivência amena, a obediência civil, a falta de antagonismos de classe e a
despreocupação com os problemas sociais, não deixaram perceber o que acontecia
dentro das favelas...
A partir da
década de 90, a
produção ficcional envolvendo favelas se reanimou com a retomada. A favela que
antes era mostrada de forma romântica, com seus personagens lutando pela
sobrevivência, passa a ser assumida como um espaço à parte da cidade com seus
próprios códigos e leis; a pobreza romantizada se transforma em violência, é a
criminalização da pobreza. Tanto documentários quanto filmes de ficção procuram
mostrar a ausência do Estado, assim como a existência de uma realidade
peculiar, impensável para um morador do asfalto afeito às manchetes de jornal.
Cidade de
Deus é o filme símbolo dessa geração do cinema que retoma o tema da favela. O
filme, com imagens impactantes, cruas, sangrentas, reproduz a visão atual da
favela, ao mesmo tempo em que incorpora elementos da nova tecnologia. O
resultado é um filme de ação, chocante, mas que não aprofunda o tema da favela.
Do mesmo modo que as notícias dos jornais, a imagem mostrada é um recorte, é a
face sangrenta que causa espanto. É verdade que o cinema não tem obrigação de
retratar a realidade, e Cidade de Deus é um bom filme, uma boa história, bem
construída, bem dirigido, um filmaço, mas que acaba reproduzindo a imagem da
favela veiculada pela grande mídia. Cidade de Deus acaba sendo, portanto, mais
do que um retrato da favela, um retrato de seu próprio tempo.
Assim, os
filmes não escapam de transmitir sempre uma versão do real e acabam, de uma
forma ou de outra, reproduzindo as ideologias vigentes em seu próprio tempo.
Talvez a vida simplesmente não desse um filme, mas a representação da favela
veiculada pela mídia está longe da vida de provavelmente 99,99% daqueles que
vivem nas favelas. Se por um lado, os filmes de ficção que envolvem o real
esbarra em questões éticas, por outro, as vozes dos espaços populares ainda não
encontraram espaço na mídia e não podem dar sua versão do real.
BIBLIOGRAFIA:
Felipe
Bragança: Cidade de Deus. http://www.contracampo.com.br/criticas/cidadededeus.htm.
Dicionário
eletrônico Houaiss da língua portuguesa.
Márcio
Rezende Jr., As favelas no cinema. http://www.reator.org/reportagem/15favela.htm.
Zuenir
Ventura, Cidade partida, Companhia das Letras, São Paulo, 1995.

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